quarta-feira, março 02, 2011

O seu clube vivia uma época de sonho

O seu clube vivia uma época de sonho.

Estava na liderança do campeonato e, ganhando hoje, aumentava a diferença para o 2o a poucas jornadas do fim. Apesar desta caminhada gloriosa de mais de 25 jogos era o primeiro da época que ia ver. Depois de anos a fio sem perder um jogo, fazia um ano que não ia ao futebol, naqueles que tinham os mais longos e difíceis 12 meses da sua vida... Terminado o calvário da pior maneira possível, precisava recuperar a sua normalidade. No fundo sabia que isso não voltaria a acontecer mas isso não o impediu de se agarrar a um pouco do que tinha antes.

Mesmo depois das fortes emocões daquele dia decidira ir ao estádio. Quando anunciou aos que viveram aqueles últimos dias consigo que ia ao futebol todos ficaram de boca aberta, estarrecidos. Preocupavam-se com o que tinha passado mas também como iria, na sua idade, enfrentar a solidão do futuro. Apenas o neto mais novo, na sua inocência, gritou um "Viva!" perguntando depois se podia ir com ele... Com um mero olhar firme desarmou quem, sem grande convição, o tentou demover ou acompanhar. Sem grandes cerimónias despediu-se da família e amigos, vestiu o sobretudo sobre o fato escuro, pegou no cachecol vermelho de destoava e saiu.

Estacionou o carro, vestiu o cachecol por cima do sobretudo negro. Saiu. Chovia copiosamente mas nem isso lhe acelerava o passo ao longo dos quilómetros curtos até à entrada no estádio. Arrastou-se como que querendo que a água lhe levasse o que sentia na alma. A sua volta grupos e adeptos sozinhos passavam depressa ou corriam para evitar chegar encharcados as bancadas. Mas ele demorou o seu tempo, longo, ignorando a tempestade e o frio. Passou pelas bancas de camisolas, bandeiras sem pestanejar nem olhar de lado. Entrou no estádio sem se deixar contagiar pela alegria dos muitos que praticamente enchiam as bancadas.

Subiu lentamente as escadas como se carregasse o peso de toda a chuva que caía lá fora. Escorrendo e agarrando-se a cada passo ao corrimão sentiu-se a regressar a um lugar familiar. Depois do último lance de escadas olhou para o seu lugar de sempre e sentiu-se brevemente reconfortado apesar do frio. Sentou-se e respirou fundo como que a querer deitar para fora o que lhe ia na alma... Pelo menos o jogo ia começar.

Hoje não haveria a habitual mensagem a confirmar que chegara bem. Durante 90 minutos sem esquecer, esvaziou a cabeça. Não conseguiu festejar nenhum dos 3 golos da sua equipa nem partilhar da alegria dos milhares que, terminado o jogo, saudaram efusivamente os jogadores e equipa técnica. Quando todos regressavam a casa, ficou ali a respirar aquela atmosfera alegre e a olhar para o relvado vazio. As emoções do jogo abriram-lhe o coração e as lágrimas, furtivas, rolaram pela cara até ao chão de cimento. Cerrou os olhos com força como que a querer encerrar de novo o que sentia mas não foi capaz. Durante anos a fio, ali naquela bancada, riu, sofreu, festejou, saltou, praguejou vezes sem conta. E agora que a sua vida se aproximava da última etapa, agora que nunca mais voltaria a ser igual agarrava-se àquele lugar como nunca sem vontade de voltar para casa, vazia.

Quando o jovem "stewart" se aproximou para o avisar que tinha que se ir embora, protestou. Sem olhar para o rapaz, que não teria mais de 20 anos nem estava habituado a enfrentar este tipo de situações, disse-lhe em tom sussurrante mas arrastado:
- Hoje enterrei a minha mulher depois de mais de 50 anos de casado. Se não se importa, gostava de ficar por aqui mais algum tempo...
Dito enfrentou o imberbe, olhos nos olhos, em suplica. Sem argumentos e sem maturidade para o que acabara de ouvir, o jovem fardado de segurança retirou-se. Ainda sentado no seu lugar deixou-se estar até todos o estádio se esvaziar, até quase todas as luzes se terem apagado. O tempo passou em suspenso como se parasse enquanto ali estivesse. Quando mais nada ali restava senão memórias levantou-se para enfrentar a realidade, arrastando-se para fora do estádio. No caminho da saída apenas encontrou o mesmo "stewart" de antes que ficara até que se decidisse ir embora. À sua passagem apenas baixou a cara envergonhado sem ser capaz de dizer o que fosse.

O caminho de casa fê-lo devagar, sentindo cada passo como o aproximar de algo inadiável. Rodou a chave na porta e entrou. O silêncio devolvido pela casa fê-lo acordar para a realidade. Hoje não contaria a estória do jogo nem as emoções sentidas. De hoje em diante estava só...

P.

segunda-feira, novembro 15, 2010

Os meus irmãos...

Não tenho irmãos ou irmãs.

Nunca me interessou saber porquê, a vida tem as suas curvas e a razão das coisas muitas vezes não tem qualquer interesse. Esta questão nunca me suscitou qualquer curiosidade. Sempre gostei muito de ser filho único e não ter que partilhar os afectos e a atenção dos meus pais. E que bom foi ser neto único num dos lados da família do que um de muitos no outro. Há coisas que não se escolhem e são como são, não valendo de nada dar-lhes um mínimo de atenção porque nunca vão mudar.

Os meus irmãos sempre foram os meus amigos!

Quando era puto, tinha-os (ou tinha-o, nunca percebi bem...) na minha cabeça. Brincava horas com ele(s). Sempre me disseram que brincava muito sozinho mas nunca estava só... E das aventuras juntos surgiram conversas infindáveis sobre os mais variados assuntos, dos mais sérios aos que duravam o tempo de quase nada, até outro o substituir sem esforço. Mais velho continuámos as conversas, mais escassas e já em inglês!!! Sim, desconfio que esse meu amigo era anglo-saxónico, nunca percebi bem e o sotaque nunca o denunciou. Mas depois dos meus 10/11 anos falámos quase sempre nessa língua. Why? I don't have a clue, my dear. Hoje cada um seguiu o seu caminho e é raro encontrarmo-nos embora saiba que ele anda por aí...

E depois os amigos de carne e osso, poucos porque nunca fui muito expansivo. Restam-me uma mão cheia deles que passaram, com distinção, o teste do tempo. Mesmo sem o saberem foram e são importantes, cada um à sua maneira e no seu espaço/tempo. Nos "teen", senti falta de alguém que, sendo da minha geração, partilhasse o que fui enfrentando na minha esfera mais próxima. Tinha-me dado muito prazer, em alguns momentos, ter tido um irmão ou irmã mais velho, nem que fosse para me guiar "in the darkest moments". Talvez por isso, à época, me tenha aproximado mais de amigos que também estavam na condição de "filhos de pais divorciados".

Hoje sinto falta de estar com eles mais vezes, vão-se adiando almoços ou jantares para a próxima, porque os afazeres da vida a isso obrigam... sim, estão lá, eu sei disso mas sinto-lhes a falta, nem que seja das conversas de circunstância.
Na falta de cão, desenvencilhei-me como pude e alguns amigos serviram de gato. E não foi por aí que as coisas correram pior, antes pelo contrário. Hoje olho para os meus filhos e não me canso de pensar na sorte que têm por se terem um ao outro. Espero que, quando crescerem, possam  olhar um para o outro como o tesouro mais importante que podem ter. Pelo menos até chegar o tempo de terem filhos...

P.

quinta-feira, novembro 04, 2010

Em dias de nevoeiro...


Em dias de nevoeiro a sua memória regressa sempre a Londres.


Concretamente ao Verão de 1940 quando ali chegou pela primeira de inúmeras vezes. Naquele tempo servia como segundo marinheiro no Corte Real, um navio mercante de pavilhão português de 90 metros que fazia serviços maioritariamente entre os arquipélagos da Madeira e Açores e Portugal Continental. Nesse quente mês de Junho faziam a viagem Leixões-Liverpool, transportando conservas de sardinha e atum para uma Inglaterra cada vez mais isolada.

Em Junho desse ano Hitler, depois de derrotar categoricamente os franceses em poucas semanas de guerra total, estendera a mão à Inglaterra. Prometia-lhes Paz e o Império a troco do domínio da Europa Continental. Mas em Londres já não governava o fraco e titubeante Chamberlain. Churchill, agarrando-se a pouco mais que uma promessa de “sangue, sofrimento, suor e lágrimas” mostrou os dentes de “pitbull” aos discursos apaziguadores do líder alemão. Não haveria uma Paz de Munique outra vez… Os Nazis tinham ido longe demais para porem de joelhos uma Inglaterra que, estando perto, ficava ainda para lá do Canal da Mancha. O exército inglês, salvo “in extremis” na proeza de Dunquerque, estava de rastos, desorganizado e desarmado. Restava a poderosa Royal Navy e algumas centenas de caças da Royal Air Force para deterem o rolo compressor alemão. Este, confiante após as vitórias da Polónia, Noruega e França precisava atravessar a Mancha… desde que esses obstáculos saíssem da frente.

Voltando ao Corte Real, a algumas milhas do porto inglês deu-se uma avaria séria numa das máquinas. Tendo em conta o clima de guerra aberta e o embargo que se vivia, o Comandante José Narciso Marques Júnior decidiu aportar. Era preferível rumar a Liverpool, descarregar a preciosa carga e reparar os danos nas docas do que ficar a mercê dos temíveis submarinos alemães. É certo que havia acordo entre Portugal e as potências beligerantes para a livre circulação dos seus navios desde que a sua carga e objectivo não beneficiasse qualquer uma das partes. Embora o Corte Real estivesse bem identificado como navio de um país neutral, o seu manifesto de carga e destino colocariam poucas dúvidas aos ávidos comandantes alemães que dirigissem os seus lobos naquelas águas.

Chegados às docas inicia-se o alijar da carga. Do armador e das autoridades do porto chegam notícias pouco animadoras... Por aqueles dias a lista de navios avariados ou danificados pelo esforço de guerra era tremenda, com especial atenção para as unidades da Royal Navy cujo funcionamento era vital para manter os alemães afastados das suas costas e das rotas que, literalmente, alimentavam o esforço inglês para se manter à tona. Mesmo sem precisar de recorrer aos ingleses, eram necessárias peças que, face ao embargo, demorariam meses a estar disponíveis.

Passados alguns dias, o armador decidiu dispensar a quase totalidade da tripulação, mantendo a bordo os homens estritamente necessários para os serviços mínimos a bordo. A ideia passava por fazer regressar o comandante e os tripulantes por mar ou pelo ar para que pudessem ser colocados ao serviço de outro navio enquanto o Corte Real esperava na doca seca por ser reparado.

Mas se essa operação se apresentava demorada, fazer sair a tripulação das ilhas britânicas no auge da Batalha de Inglaterra era, no mínimo, uma tarefa heróica. Havia voos civis mas eram raros, caros e com longas listas de espera. Lisboa era naqueles dias de incerteza e medo um paraíso seguro e, lá chegado, qualquer refugiado podia pensar em deixar o Velho Continente para outras paragens longe do Inferno da guerra. O armador pediu então aos marinheiros dispensados que fossem para Londres onde a Companhia Nacional de Navegação, dona do Corte Real, tinha uma representação. Daí encontrariam uma forma de voltar a Portugal.

Assim, chegou a Londres na pior altura possível!

O nevoeiro, raro, e o fumo, imenso, vindo das docas e do East End pintavam o cenário de uma luz feérica e estranha, quase magica não fosse a sua origem os terríveis bombardeamentos da Luftwaffe. Londres era uma cidade sitiada do ar. Os bombardeamentos, de dia e de noite, não davam descanso. As sirenes tocavam com um ritmo constante, avisando da chegada eminente das máquinas voadoras alemãs que, do seu ventre de aço, cuspiam engenhos explosivos e incendiários. As baixas civis, como em Coventry ou Guernica, uns anos antes, cresciam embora o seu número fosse mitigado pelo esforço de todos em tornar difícil a tarefa dos nazis. Os serviços públicos de controlo de danos funcionaram irrepreensivelmente quando isso parecia impossível. A vida era levada com a maior normalidade possível mas sempre de forma decidida e como se tudo aquilo não passasse apenas de um mero contratempo enfrentado com desdém. Não seria pela quebra do moral inglês que os alemães venceriam esta batalha.

Nesses dias aprendera a respeitar e admirar os ingleses. Sozinhos contra Hitler, sob constante ameaça de invasão, sofrendo o racionamento de bens essenciais, enfrentavam as bombas alemãs com uma fleuma e, por incrível que parecesse, com um enorme sentido de humor. Os discursos de Churchill alimentavam a esperança quando tudo apontava para o fim. As elites davam o exemplo e sofriam com o povo o mesmo tipo de agruras e dificuldades daqueles dias. As bombas tanto caiam no East End como no Palácio de Buckingham ou nas centenárias Houses of Parliament. A Família Real, o parlamento e todos os ministérios e serviços públicos continuaram em Londres como se se vivessem calmos dias de paz

E dos ceús limpos daqueles dias quentes vinham, para além do Sol, raios de esperança. Ténues é certo, talvez fossem insuficientes no final… mas dia após dia dali, daqueles pequenos pontos negros sob o azul vinham grandes notícias… Montados nos seus corcéis voadores, os pilotos da Royal Air Force, contra todas as probabilidades, enfrentando uma Luftwaffe orgulhosa das vitórias recentes e mais poderosa em números, davam luta! Se eles conseguiam bater os alemães então… pouco a pouco percebia-se que a tão possível invasão podia ser detida. Os alemães podiam ser abatidos e empurrados para lá do mar…tal como Napoleão no seu tempo.

Não voltaria a Portugal a não ser alguns anos depois, já depois de terminada a guerra. E muitas aventuras passaria depois de se ter demitido da marinha mercante portuguesa. A lição dada pelos londrinos nesses dias era forte demais para virar a cara e voltar à pacata terra natal. Sentia que tinha que retribuir esse exemplo com o seu pequeno esforço!

Semana após semana, nesse Verão, a Inglaterra continuava de pé! As vagas de invasores cavalgavam os ceús da Velha Albion para a derrotar e voltavam cada vez mais desgastadas e abatidas sem conseguir pôr de joelhos os britânicos. Os U-Boote apertavam o garrote em torno da ilha mas fracassavam em cortar totalmente as linhas vitais para o esforço de guerra britânico. A retórica de Hitler esbarrava na combatividade de Churchill, que teimava em manter elevado o moral e mostrar a todos que “nunca na história dos conflitos humanos, tantos deveram tanto a tão poucos”.

Sim, o nevoeiro fazia-o sempre voltar a Londres e àqueles dias em que, no meio do denso fumo escuro que antecipava uma negra esperança, o mundo livre suspendeu a respiração à espera das piores notícias… que nunca chagaram! Passadas algumas semanas, quando as marés e os nevoeiros do Outono tornaram impossível a invasão, Hitler adiou a guerra em Inglaterra. O Mundo respirava novamente de alívio, pelo menos por mais alguns meses. Podiam não ter força para vencer a Alemanha nazi por si sós mas os ingleses estavam ali para o que desse e viesse. E não se renderiam até à vitória final!

P.

PS: faz por estes dias 70 anos que terminou oficialmente a Batalha de Inglaterra. Para que não se esqueça o passado, fica aqui a memória...

sexta-feira, outubro 15, 2010

"...estamos bien los 33"


17 dias depois de terem ficado isolados do mundo, a 700 metros de profundidade, esta foi a 1ª mensagem que mandaram para o mundo: "estamos bien los 33".  33 histórias de esperança, de fé em Deus e no Homem, 33 vidas que, durante 69 dias mantiveram em suspenso o Chile e todo o planeta.

33 mineiros que a 5 de Agosto foram apanhados por um desabamento de terras quando trabalhavam na escavação de minério (cobre e ouro). Não bastava terem um trabalho duríssimo como todos os mineiros em qualquer país, ainda passaram por um cativeiro de mais de 2 meses para poderem ver a luz do sol ou os sorrisos dos seus.

Qualquer pessoa que tem como obrigação profissional descer às profundezas e, rodeados por milhões de toneladas de terra, trabalharem em condições extremas numa profissão por si já exigente, tem o meu obsoluto respeito. Eu não o conseguiria...

Tal como os gauleses de Uderzo e Goscinny temiam, estes homens vivem sob o espectro de "o céu lhes cair em cima da cabeça". Para os 33 homens de San José, Chile, o dia 4 de Agosto, ainda vivido em liberdade e junto dos seus, foi a véspera desse dia!

Para quem é crente, foi um milagre terem sobrevivido quase sem danos físicos ao desabamento como foi um milagre terem dado sinal de vida. Também o facto de terem sobrevivido, organizados e com moral elevado, 17 dias depois até chegar auxílo, curto, da superfície. E após 69 dias fechados no seu "refúgio" voltarem, sem danos aparentes, a ver os seus que os pensavam perdidos e a regressarem do limbo a que estariam condenados.
Não sendo crente penso que tiveram a fortuna de viverem um tempo em que, a cada dia, o génio humano consegue ultrapassar barreiras cada vez mais longínquas (no sentido não literal da palavra). Tiveram a sorte de sobreviver e a sagacidade de, perante a adversidade, se unirem uns aos outros e ter esperança. Isso foi determinante porque de outra forma todos os esforços à superfície teriam sido em vão. Cá fora, unindo esforços de vários cantos do mundo, preparou-se uma operação de resgate usando a tecnologia mais avançada.

Vivemos tempos históricos, para o bem e para o mal. Basta-nos ter Esperança, como aqueles 33 mineiros tiveram quando tudo à sua volta lhes dizia para desistir. Não é uma história de vida, são 33 que nos fazem pensar...

P.

terça-feira, outubro 12, 2010

Viver todos os dias custa....



Alguém que eu admiro muito, do qual sou fã incondicional e que escreve aqui, disse uma vez que "viver todos os dias custa"...

Na altura, há uns anos atrás, a expressão significou pouco para mim. Tinha menos preocupações, mais tempo livre e a vida corria sempre a rolar, mais ou menos depressa, mas sempre de ladeira abaixo quando todos os santos ajudam!

Hoje a cada dia que passa tenho mais a certeza de que essa expressão é a mais pura das verdades. Heróis não são aqueles que fazem um feito extraordinário uma vez na vida! Ídolos não são os que se destacam da multidão por terem um dom! Estrelas não são as que brilham intensamente por uma única vez...

Heróis são os que estoicamente vivem um dia depois de outro, semana após semana e muitas vezes com pouca ou nenhuma esperança de alguma vez se sobressairem da multidão. Enfrentam o destino, muitas vezes azedo, com um certo desdem no rosto, com um sorriso até. Vencem barreiras profissionais todos os dias muitas vezes apenas por brio pessoal, aguentam firme na vida famíliar injustiças e tristezas com um brilho nos olhos para que à sua volta não se apercebam disso, na sua vida social passam por dificuldades e indiferenças sem se deixarem ir abaixo. Alguns caiem mas a maioria aguenta firme!

Esses, todos nós que anonimamente aqui andamos "com a cabeça entre as orelhas" como diz o Sérgio, são os verdadeiros heróis nos dias que correm. E são esses Heróis com letra grande que mais uma vez vão aguentar o barco na tempestade que se aproxima. Mais dificuldades, menos dinheiro ao fim do mês, mais desemprego, menos oportunidades, tudo isso se vai multiplicar no futuro (próximo) mais-que-imperfeito.

Chegou o tempo de cerrar os dentes com força e enfrentar o que aí vem. Depois logo tratamos de encontrar que nos levou até aqui...mas agora segure-se o leme, recolha-se o velame, aprume-se o cordame que o céu escuro em frente mostra o que nos espera...

Os próximos meses e anos vão mostrar a fibra de que somos feitos e, quando virmos que o bater no fundo já está para trás das costas,  se ainda cá estivermos então... então nada nos pode deitar abaixo.

P.

terça-feira, setembro 28, 2010

(I)Mortalidade

Ontem, num absolutamente banal olhar de esguelha, cruzei-me com ela...

Não me enfrentou cara a cara nem me dirigiu qualquer palavra. Passou apenas, como se flutuasse gélida e impávida no éter ao ritmo de um pendulo imparável.

Ontem, quando menos esperava, percebi o que muitos percebem ao fim de uma vida e outros, por a deixarem cedo demais, nunca lá chegam perto.

Entendi, sem perceber porquê, que não vou cá estar para ver os meus filhos chegarem a velhos e chegará o dia em que eles terão de estar preparados para viver sem mim. Não estarei quando a ciência, montada no seu corcel furioso da evolução, tornar banais doenças que hoje matam sem pudor ou levar o Homem por espaços nunca dantes navegados.

Quando a Queda do Muro de Berlin, os atentados às Torres Gémeas ou a eleição do primeiro negro fizerem 100 anos não vou festejar e dizer "eu vivi esses tempos loucos". Mas estive nesses momentos por aqui!

Hoje, num dia de Outono ainda vestido de Verão, dei de caras com a minha mortalidade. Ela, frígida mas intensa, ignorou-me. E eu fiz-lhe o mesmo... Porque até ao últimos dos meus minutos, viverei como se fosse imortal, contam os dias que cá estamos, o que neles sentimos e não deixamos por fazer. A vida vale o que dela fazemos e sentimos em cada momento. Tristes são aqueles que quando partem o fazem a pensar no que deviam ter feito.

Para esses a Morte tem um recado: "Agora já foste...!"

P.

segunda-feira, setembro 27, 2010

No dia em que o Google faz 12 anos...

...faz 10 anos que comecei a trabalhar como comercial na área onde estou actualmente, ou seja, Telecomunicações...

E ao "Googlar" o meu nome...deu zero!!!

No tempo em que és o que de ti está online isso quer dizer muito...

P.

terça-feira, setembro 07, 2010

domingo, agosto 15, 2010

Once more into the breach...

KING HENRY V:
Once more unto the breach, dear friends, once more;
Or close the wall up with our English dead.
In peace there's nothing so becomes a man
As modest stillness and humility:
But when the blast of war blows in our ears,
Then imitate the action of the tiger;
Stiffen the sinews, summon up the blood,
Disguise fair nature with hard-favour'd rage;
Then lend the eye a terrible aspect;
Let pry through the portage of the head
Like the brass cannon; let the brow o'erwhelm it
As fearfully as doth a galled rock
O'erhang and jutty his confounded base,
Swill'd with the wild and wasteful ocean.
Now set the teeth and stretch the nostril wide,
Hold hard the breath and bend up every spirit
To his full height. On, on, you noblest English.
Whose blood is fet from fathers of war-proof!
Fathers that, like so many Alexanders,
Have in these parts from morn till even fought
And sheathed their swords for lack of argument:
Dishonour not your mothers; now attest
That those whom you call'd fathers did beget you.
Be copy now to men of grosser blood,
And teach them how to war. And you, good yeoman,
Whose limbs were made in England, show us here
The mettle of your pasture; let us swear
That you are worth your breeding; which I doubt not;
For there is none of you so mean and base,
That hath not noble lustre in your eyes.
I see you stand like greyhounds in the slips,
Straining upon the start. The game's afoot:
Follow your spirit, and upon this charge
Cry 'God for Harry, England, and Saint George!'

terça-feira, agosto 03, 2010

Losing battle...

Durante uma guerra prolongada um dos fenómenos que mais afecta o moral e a capacidade de combate de uma unidade é a substituição dos veteranos por soldados novatos. Cada vez que um veterano deixava a sua unidade (morte, ferimento ou fim de comissão) perdia-se experiência, conhecimento e, mais importante, uma referência para os restantes companheiros. E os novatos que chegavam, não tendo essa experiência e ligação com o resto da unidade, tinham problemas de integração que levavam à perda de eficácia do grupo como um todo. Precisava-se então tempo (que raramente havia) para que a unidade voltasse a ter o mesmo nível de operacionalidade.

Uma sociedade comporta-se da mesma forma. Sabendo-se que os mais velhos e experientes mais cedo ou mais tarde nos vão deixar, é preciso que o conjunto tenha uma dinâmica e uma capacidade de se auto-regenerar e permitir "um elevado nível de operacionalidade" do todo.

Quando essa dinâmica não existe ou está adormecida temos um problema. Mas se os mais experientes desaparecem a um ritmo mais acelerado ou antes do tempo, esse problema multiplica-se.

Receio que esteja a acontecer isso mesmo connosco, aqui neste cantinho plantado à beira-mar. Nas últimas semanas deixaram-nos algumas referências em áreas distintas como o Jornalismo, o Teatro ou a Literatura. E sinto que os que cá ficamos não estamos ainda ao nível dos que, cedo demais, nos vão deixando. Saramago, António Feio ou Mário Bettencourt Resendes são insubstituíveis. Andamos todos demasiado preocupados com problemazitos que não o são enquanto que o essencial vai-se tornando acessório.

Existem novos valores que aqui e ali vão despontando mas parece-me que aqueles se foram cedo demais. Mas se calhar sou só eu que penso assim...

P.

segunda-feira, agosto 02, 2010

A pré-época...

Enquanto uns perdem e desculpam-se com a relva e os árbitros...

Enquanto outros vendem as jóias (?), trocando-as por "pechisbeques" sem saberem se ficaram ou não os dedos...

Há os que, tendo sido campeões, saltam de goleada em goleada como se nem tivesse terminado a época passada!!!

Sem querer embandeirar em arco, este ano vai ser mais do mesmo...

P.

Trabalhar em Agosto...


...é muito bom!

Menos trânsito, dias longos, parece que o trabalho rende mais por menos tempo, vive-se uma atmosfera diferente.

Infelizmente e porque a escola dos meus filhos fecha neste mês há vários anos que sou "obrigado" a gozar férias neste mês.

Ainda assim, os dias a trabalhar quando toda a gente parece estar fora dão-me mais gozo ainda.

E falta (ainda) menos tempo para ir de férias!

P

domingo, agosto 01, 2010

Ainda uma homenagem (pequena) a António Feio

Ninguém como ele viveu de acordo com este hino dos grandes Monthy Python:



P.

quarta-feira, julho 28, 2010

sábado, julho 17, 2010

Portugal dos pequenitos - Quadro nº 1

Dia de trabalho, 9:12 da manhã

Entro numa pastelaria igual a tantas outras, banal para tomar um café, antes de entrar para uma reunião com um cliente.

Com um sonoro e bem disposto "Bom dia", peço "um café por favor".

(Sublinho o "Bom dia" e o "Por favor" da minha parte para que não restem dúvidas que iniciei o contacto da forma mais correcta possível).

A esta abordagem não houve qualquer reacção que não fosse o depositar de um pires e uma chávena (vá lá que esta vinha cheia e com café...). Foi o suficiente para me sentir incomodado mas nada mais do que isso, tinha outras preocupações em mente.

Para além disso cobram-me 65 cêntimos por um café sofrível e um ar de frete de uma empregada que não tem, nunca teve e dificilmente terá apetência ou motivação para servir a um balcão... Começo a sentir um incómodo crescente mas ok, no stress, no worries, vamos lá para a reunião que é bem mais importante que tudo isto.

Hora de pagar, nota de 10 € entregue (tinha ido ao Multibanco antes e o raio da máquina não me deu notas ou moedas de menor valor...).

Proverbial pergunta nas únicas palavras que me dirigiu: "Não tem mais pequeno" em tom de guarda nazi dirigindo-se a um prisioneiro de um campo de concentração (com o devido respeito).

Bom, se eu não admito que quem me conheça me fale assim, quanto mais quem eu nunca vi na vida e faço questão por não voltar a ver! Já com o indicador "paciência" no vermelho, respondo: "Não, o multibanco ainda não da moedas..."
Sentindo-se picada, resmunga algo que felizmente não percebi. Arranca a nota do balcão e dispara direita a máquina registadora, preparando a vingançazinha e com ar de "já vais ver"...

Adivinho o que aí vem já com um sorriso nos lábios...

Deposita arrogantemente o troco todo em moedas, sendo a de maior valor 50 cêntimos... Olho para ela e devolve-me o gesto com o ar triunfante de "quiseste-ser-mais-esperto-que-eu, toma-lá-uma-hérnia-discal-à- conta-do-peso-das-moedas-na-carteira"! Tão previsível...

Time to go, o meu cliente é mais importante que a mesquinhez daquela personagenzinha. Mas como ali o cliente sou eu, não estou para ser gozado e o combate já vai longo, resolvi ir sem mais delongas para KO: "Já agora, traga-me o Livro de Reclamações, por favor..." Por magia, o arzinho de matrona em marcha triunfal pelas ruas de Roma no tempo de César ruiu estrondosamente, CATRAPUM...

Este país precisa que usemos bombas nucleares para matar moscas, de outra forma os brandos costumes vão nos matando todos os dias...
P.